Num ritual meu , simples e cotidiano, bebo na taça: vinho tinto, vinho seco, as vezes doce, cítrico...Etílico.
Acendo meu cigarro e mesmo não-fumante trago .
Passo a tragar a vida num gole de vinho e conversar com minhas canções, contar pro silêncio o ‘não-dito’ sobre mim.
Sabe a solidão que não se sente?... aquela que não dói?
Sabe aquela música triste que risca nosso olho de tanto tocar e tocar e tocar?
Sabe a voz da cantora no canto de um bar, sobre um piano embriagada...?
Sabe de mim? !
De mim o quê? De mim o quê, se sou algo que eu mesmo procuro e fecho os olhos prá não ver?
Se sou um passado remontado em fantasmas, um colo materno assustado, um barulho surdo não meu?
Saber, saber o quê, se da minha dor nem eu sei, se não consigo vê-la prá cuspir na sua cara e dizer: -Vá pro diabo que a carregue!!
Acontece que dá de aparecer um todo mundo, uma gente toda prá dizer de mim!
Dizem que ainda sou aquele menino assustado no canto da sala assistindo espíritos vivos. Dizem que ainda ouço o ruído que ficou fazendo eco no meu passado.
Dizem que sou literal demais, concreto e semi-infantil. Dizem que sou cômico, zombam do meu erro, dão risada do meu ar magro e branco. Riem de mim mas nem desconfiam que no fundo eu sou uma grande metáfora...resignada, quieta,triste,sonora e feliz.
Dizem que minha lágrima ficou presa.
Dizem ainda que ficou presa no canto esquerdo do meu olho azul...mas quem é que sabe?
Meus rituais seguem, meus rituais me perseguem...
E eu me sinto estranho...
Único e ao mesmo tempo tantos. Mas não sou um ator! Não sou um poeta. Sequer intérprete da palavra: Nem intelectual, nem literário.
Mesmo não sendo nada disso, algo me impulsiona pro olhar da platéia e aprendo então a descortinar minhas falhas e minhas resistências.
Sou na realidade o silêncio da canção que a minha alma lenta canta.
E num canto de um bar americano;
Num blues triste e solitário;
No reinventar cotidiano do meu ritual;
Bebo na taça – vinho tinto, vinho seco, as vezes doce, cítrico...Etílico.